Arquivo de junho, 2012

Parte 06

A vontade é de correr. Atravessar a cozinha, sair pela porta dos fundos e pular o muro. Fugir fugir fugir… Essa palavra ecoa na mente como um mantra demoníaco, um processo consumindo cem por cento do seu sistema não deixando espaço para outras tarefas como, por exemplo, um plano de fuga decente, ou como escalar um muro de mais de três metros, ou depois de escalado o muro, o que fazer pra descer três metros de altura no quintal da casa dos fundos, já que essa casa que você está não tem saída para rua pelos fundos. E se a casa dos fundos estiver trancada, ou pior, infestada?
Definitivamente a sua única saída é pela porta da frente, passando pelo desafio que está te esperando bem na sua frente, se debatendo na janela, desfigurado e descontrolado.
O que te separa do agressor é uma grade de ferro com um vão de pouco mais de quinze centímetros. E antes que ele perceba que se virar o corpo de lado pode ser que consiga entrar, é melhor dar um jeito de uma vez por todas. O problema é como dar “um jeito” em alguém que já levou um tiro no olho, arrancou as orelhas para tentar entrar pela grade e não parece estar nem um pouco preocupado com dor? Se o primeiro tiro não resolveu, tentar um segundo e acabar sem balas também não parece uma boa idéia. Talvez uma pancada com muita força bem dada no topo da cabeça resolva… Talvez nada resolva. Talvez essas coisas simplesmente não voltem mais a ficar mortas.


Mas você já os viu “morrerem” antes. Já sabe que tem que ser um golpe ou um tiro ou qualquer coisa atingindo a cabeça. E olhando ao redor, não parece ter nada tão efetivo quando um machado de incêndio ou uma boa marreta de uns cinco quilos. Quem garante que sair procurando ferramentas pela casa não vai dar tempo para a criatura descobrir uma maneira de entrar. Tudo o que você conseguiu encontrar à sua volta foi um pé de uma mesinha jogado próximo aos seus pés no meio dessa bagunça toda. Um bom pedaço de madeira forte o suficiente pra esmagar a cabeça de alguém. Pelo menos é tudo o que você consegue pensar nessa hora e então pega o pedaço de madeira e acerta o primeiro golpe bem no meio da crânio da criatura.
Sabe aquela frase “Vai doer mais em mim do que em você”? Pois é a primeira coisa que você lembra quando no momento em que acerta o golpe, o impacto da madeira é refletido diretamente na sua mão causando uma dor enorme. Talvez o problema disso seja que as próximas pancadas não serão tão fortes quanto à primeira, porque por puro instinto de preservação do seu próprio corpo você não seria capaz de causar danos à sua mão. Mas não nesse caso, onde a insanidade já tomou conta e o que manda aqui é outro instinto. O instinto de sobrevivência.
Então você bate uma, duas, três vezes bem no meio da cabeça da criatura que ainda insiste em tentar alcançar seus braços se movimentando cada vez mais rápido. Na madeira em sua mão tremula, sangue e cabelos mostram que os golpes não foram de brincadeira, mas o efeito não foi efetivo.

Mais uma série de pancadas que vão enfraquecendo conforme a dor de suas mãos aumenta cada vez mais e a maldita criatura ainda está se mexendo. Claro que o formato do crânio já começa a demonstrar os efeitos da brutalidade e já é possível notar na parede e na janela respingos da arte moderna doentia e você, o Picasso satânico com seu pincel de madeira pintando a morte em suas roupas sujas. Com muito mais força, outra pancada faz com que a criatura bata com o queixo na beirada da janela fraturando o maxilar em dezenas de pedaços.
Então cansado e suado, você para pra olhar o resultado, limpando o suor e sangue da testa. A criatura continua “viva”, porém agora com o maxilar fraturado e afundado dentro da própria boca os gemidos que já estavam piorando a situação de nervoso em que você está se tornaram abafados. Você olha pra sua mão e vê que as marcas da madeira já começam a se transformar em bolhas e quando você se preparava para mais uma seção de espancamento, seu antebraço é agarrado pela outra criatura que estava na porta e devido ao barulho veio tentar uma chance na janela também.
Para sua sorte, você não estava usando nenhum tipo de blusa de manga longa e com um puxão mais forte foi possível se livrar do agressor. Porém agora você tem duas criaturas na janela tentando te alcançar enquanto as outras três já estão na calçada a poucos metros de se juntarem aos companheiros e começar uma sinfonia de gemidos bem na sua janela. A serenata apocalíptica de amor, não por você, mas sim por sua carne.

Muito bem, e agora? Esperar todos eles se reunirem na janela e começar a bater ate sua mão ficar em carne viva e rezar para que um ou dois pare de se mexer ou sentar no chão em posição fetal e chorar feito uma criança faminta?
E então, quando tudo parecia perdido e que não poderia piorar, eis que surge um carro verde acelerando e se preparando para avançar em direção à janela. É muito para um dia só, um grupo de zumbis famintos em sua janela e agora um psicopata ao melhor estilo “Death Proof”, se preparando para vir em sua direção, totalmente decidido a bater em sua janela.
É engraçado como nos filmes se ensina tudo ao contrário mesmo. Nada de câmeras em slow motion com musica de suspense no fundo e pequenos pedaços de vidros flutuando ao ar, quase que parados, enquanto a câmera gira suavemente ao redor do carro. Nada de cenas em vários ângulos e cara de herói durante um salto digno de filmes de John Woo.
Não, na realidade você mal consegue ver a cara do motorista. Tudo acontece tão rápido que você só consegue ver a fumaça de cimento dos blocos da parede e centenas de estilhaços de vidros que devem ter vindo da janela ou do para brisa do carro quando atingiu a parede voando diretamente na sua cara.

Você pula meio de lado para trás tentando se proteger e é atingido por qualquer coisa. Um pedaço de concreto da parede, um braço de uma das criaturas, alguma coisa que voou do carro, realmente não da pra saber.
Então você cai no chão batendo primeiro com as costas e depois com a nuca, com força suficiente para dar um clarão na sua vista. Enquanto a dor está sendo processada por seus neurotransmissores, tudo que você consegue ouvir é uma buzina de carro disparada e aguda, porém estranhamente distante.

Então o som da buzina vai ficando cada vez mais distante enquanto milhares de vozes e imagens confusas tomam conta de sua mente e o clarão vai dando lugar a uma sequencia borrada de sombras até ficar totalmente escuro. Finalmente seu corpo se entrega depois de tantos dias de nervosismo e pouca alimentação e o desmaio vem cobrar o alto preço de muitas noites mal dormidas.

Tief

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