Arquivo de outubro, 2011

Parte 05

Você corre ofegante e percebe que o desespero e a pressa conseguem desabilitar as ações mais simples, como passar por uma porta, segurá-la e fechá-la trancando com a chave. A chave, outro fator que no turbilhão do desespero, consegue sair do seu lugar e cair no chão antes que você pudesse dar uma simples volta na fechadura. Noventa graus para a esquerda e ela teria ficado presa suficiente para continuar a volta até trancar a porta, e não cair no chão, bater na ponta macia do seu tênis e ir parar debaixo da pequena mesinha à direita da porta.

Quantos palavrões você conhece? Quantas combinações deles você consegue fazer em quanto procura uma chave em baixo de uma mesinha, segurando a porta com um dos pés? Como se xingar em auto e bom tom assustasse a chave e fizesse ela aparecer arrependida na sua frente. E como se segurar uma porta de madeira com o pé iria impedir de alguém entrar. Alguém que nesse momento deveria já estar na porta, virando a maçaneta e entrando para pegar você, indefeso no chão, com metade do braço de baixo de uma mesinha, tateando atrás de uma chave. Mas não aconteceu. Nada aconteceu até agora.
Dois à zero para o desespero, quando você tentou levantar antes de tirar totalmente o braço debaixo da mesinha e sentiu o tranco no ante-braço, fazendo um belo de um ralado que vai incomodar por uns dois dias. Então mantendo a porta pressionada com o ombro, você tenta colocar a chave na fechadura, fazendo malabares com os dedos para deixá-la na posição correta par((BLAM))!!!

Então veio a primeira pancada na porta, como se alguém tivesse vindo da rua e esquecido que corpos humanos não atravessam objetos sólidos. Todos aqueles segundos que pareceram horas, não te prepararam emocionalmente para esse momento. O momento em que alguém com um tiro na cabeça e com o olho fora da órbita, iria bater com o corpo contra a porta que você estava apoiado, tentando trancar. Então começa a sua luta pela sobrevivência, onde girar um pedaço de metal de quatro centímetros em um cilindro encravado em um pedaço de madeira de um pouco mais de dois metros de altura, se tornou algo quase tão importante quando encher os pulmões com ar e manter as células do corpo trabalhando, juntando o oxigênio, a glicose e outros itens para gerar energia. Alias, glicose é algo que está em baixa no seu organismo, já que você não come a muito tempo, causando uma fraqueza e tontura e dificultando mais ainda a ação de trancar a porta. No meio de tudo isso, uma boa notícia é que a maçaneta é redonda e dessa forma não há perigo da criatura esbarrar o braço nela e abrir a porta. Mais uma voltinha e a chav((BLAM))!!!

Outra pancada e você grita alguma coisa com a criatura do outro lado da porta, como que se qualquer tipo de acordo ou diplomacia pudesse ser feito com alguém que nem se lembra como segurar e girar uma maçaneta. A chave termina de girar e a porta está trancada.
Porta trancada e local seguro, nem sempre fazem parte da mesma sentença, a menos que envolva grades, barricadas e madeira pregada no batente da porta. Ai podemos começar a falar de segurança. A situação esta complicada, mas pelo menos a falsa sensação de segurança lhe da espaço para diminuir a dosagem de adrenalina no organismo, respirar mais compassadamente e começar a pensar em um plano.

Ok, você está em um sobrado, em baixo está a sala, um pequeno corredor com um banheiro e a cozinha nos fundos. A janela da sala é mediana e tem grades que podem segurar qualquer um por algum tempo. A porta é de madeira, aparentemente solida, mas hoje em dia não da pra confiar em mais nada. Há muitos cacos de vidro no chão, provavelmente da mesa de centro que agora esta completamente despedaçada, como se alguém tivesse caído sobre ela. Há uma estante dessas mais simples, mas vazia e com marcas de que um dia uma TV esteve ali.
Engraçado pensar em que ao primeiro sinal de confusão em massa as pessoas fazem exatamente o contrário do que deveria ser feito. A primeira coisa que fazem é carregar objetos de valor, eletrônicos, jóias, toda a “riqueza” que encontrarem no local. Ok, você gasta energia e espaço em seu transporte carregando uma TV de 42 polegadas e varios notebooks e em dois dias você termina em algum lugar qualquer com uma dúzia de notebooks sem bateria, uma TV enorme que não serve nem pra se usar como espelho, dinheiro suficiente para comprar um carro, mas espere só! Não há nenhum comercio para se gastar esse dinheiro agora, então, papel por papel, voce poderia ter trazido um caderno pra contar a sua história infeliz de quem morreu de sede por ter esquecido de levar água.

Água. Isso deve ser sua prioridade acima de qualquer coisa. Esqueça a sacola cheia de armas e munição (se é que você vai encontrar alguma com tanta facilidade em sua cidade), esqueça os equipamentos eletrônicos como celulares e GPS, esqueça o excesso de roupas e objetos pessoais inúteis. O que você tiver de espaço livre, ocupe de alguma forma com água potável.
Quer um exemplo muito simples e básico agora mesmo? Nesse exato momento em que você está lendo esse texto, imagine que, por conta de toda a confusão gerada, você não tem mais água correndo na torneira. E de fato, em um problema de proporções catastróficas como essa, não há serviços básicos como água, luz e telefonia. Então imagine que ai mesmo na sua casa não há água em nenhum dos canos. Quanto você tem de água armazenada em sua casa? Talvez uma ou duas garrafas na geladeira? Com certeza no desespero completo, se você tiver um aquário ou algum vaso com água, você vai tentar beber isso mesmo, mas com certeza isso é o seu pior e talvez último erro. Riscos de ter uma diarreia causada por bactérias a essa altura do campeonato seria a pior forma de se morrer. E se você não tiver vasos e nem aquários? É isso mesmo caro amigo, o único lugar que vai ter dois ou três copos d’água será aquele vaso de porcelana com acento que todo banheiro tem. E convenhamos, eu ainda prefiro plantar uma dessas duas balas do seu revolver, bem no meio da minha fábrica de ideias, do que fazer igual ao meu cachorro no ápice do desespero de quem está desidratado e com sede.
Mas afinal, quanto tempo uma pessoa pode sobreviver sem água? Isso vai depender ((BLAM – BLAMM)) Ok, dessa vez seu coração fez uma pequena pausa de medo, entre uma batida e outra. Maldito zumbi está batendo com as mãos e o corpo contra a janela de vidro agora. Dizem que sustos como esse fazem bem ao coração. “Bem mal”, só se for. O estranho é que mesmo você vendo o zumbi na janela, você teve a impressão de que ele ainda bate na porta de madeira.
Continuando o assunto anterior, o tempo que alguém consegue sobreviver sem água pode variar, dois, três dias no máximo. Mas pode acontecer em horas também, tudo vai de acordo com muitas situações, como por exemplo temperatura ambiente, quantidade de esforço sendo feito, condições físicas da pessoa, etc… Perdemos água quando respiramos, falamos, suamos, produzimos energia no corpo, urinamos, entre outras ações bem básicas. Os sintomas da desidratação são tontura, dores de cabeça, enjoo, vômitos (sim, imagine que você está perdendo liquido e então começa a colocar o pouco que já tem pra fora!). Em casos mais graves o corpo começa a apresentar dificuldade de se mover, pois a falta de água nos músculos e nas juntas dificulta esse processo, perda significativa na temperatura do corpo e o próximo passo é com certeza o seu último em direção ao descanso eterno até que o vírus te acorde.

O barulho dos antebraços daquele zumbi batendo na janela está se tornando algo insuportável e você resolve fechar a cortina para conseguir espaço na mente para pensar em um plano para sair inteiro dessa casa. Quando você se aproxima da janela para puxar a cortina que você percebe que o barulho na porta era outro zumbi já em estágio bastante acelerado de decomposição e a pouca visão pelo angulo interno da janela combinado à quantidade de mordidas sofridas por aquele “cadáver móvel”, te faz imaginar se um dia foi um homem ou uma mulher. Na real, não da nem pra imaginar que isso um dia foi humano. Antes de você pensar que dois zumbis agora seriam um desafio, mais à sua frente, atravessando a rua, três criaturas se aproximam para participar da gincana. Muito bem, agora você tem praticamente cinco motivos para entrar em desesp((CRASH))… Aquele zumbi que você atirou a poucos minutos atrás, acaba de atravessar a grade da janela com a cabeça e quebrar o vidro da janela. Pra passar a cabeça pela janela, boa parte das orelhas ficaram para trás. Da pra imaginar do que é capaz um ser que não se importa em perder parte das orelhas para te alcançar e você ainda tem mais quatro deles na fila, esperando o café da manhã.

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