Manual de sobrevivência contra ataques zumbis: Parte 03

Publicado: 21 de agosto de 2011 por tiefz em Zombie Survival
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Parte 03

Faltam algumas horas pra amanhecer mas você já estava acordado. Melhor dizer, ainda estava acordado. E quem conseguiria dormir com essa tensão que tem sido a ultima semana? É impressionante como tudo muda em questão de horas e a civilização volta à idade média em pouco tempo. Ninguém sabe onde e nem como começou. Tinha alguma coisa errada na Coreia, ou seria na China? De fato você não teve tempo de prestar atenção. Era algum tipo de epidemia, algo relacionado ao ebola e logo em seguida, os EUA estavam mandando tropas para conter as rebeliões. Mais uma notícia quase tida por normal nos dias de hoje, ainda mais depois de tanta rebelião em vários países.
Aqui a coisa foi rápida de mais. Começou nos hospitais, não teve mais do que duas reportagens dizendo que algumas pessoas suspeitas de terem trazido o vírus estariam internadas e que algum tipo de rebelião começou com os internos sem nenhum motivo aparente. Foi a ultima noticia que você viu antes de ir trabalhar. No trabalho, as pessoas começaram a falar da policia estar por toda a parte e que o exército teria sido visto passando em avenidas grandes com muita pressa. Logo você imaginou ser alguma coisa relacionada ao PCC ou o Comando Vermelho.
Ao contrário do que se imagina, a maior causa das mortes no começo da bagunça toda foram os tumultos e as pessoas em pânico. Todo mundo já viu um filme de zumbis ou algo do gênero, ver uma pessoa com aparência de morta, cambaleando na rua e atacando alguém, seria mais do que suficiente para causar um estrago. A primeira reação das pessoas foi correr pra suas casas de uma vez só. A cidade não comporta mais os carros e onibus que circulam todos os dias em horarios diferentes, imagina a cidade inteira tentando seguir o mesmo fluxo. Foi como uma grande veia entupida no coração da capital e o infarto foi a correria por entre os carros parados, pessoas sendo pisoteadas e não demorou pra começarem as brigas e quebra-quebra. Tinhamos menos de 20 mortos-vivos nas proximidades de um hospital próximo ao centro e centenas de pessoas feridas e em total pânico por toda a cidade. Talvez tenha sido esse motivo que deu vantagem aos seres tão lentos como os zumbis, quem em algumas horas, aumentaram o número de 20 para 50, 60 e cada vez mais.

Como você não tinha ideia do que estava acontecendo, decidiu esperar mais um pouco no trabalho antes de sair desesperado. Alguns colegas já tinham abandonado o prédio e nas ruas do centro pessoas corriam e carros de policia passavam em alta velocidade até que um bateu em uma barra de proteção na calçadae tombou sobre umas 15 pessoas que estavam aglomeradas no ponto de onibus. Uma cena dramática e indiscritível. Então você se sentou na sua cadeira e ficou em estado de choque sem saber se deveria sair ou esperar.

Passado algumas horas, você ouve uma ambulância chegar no local para socorrer as vítimas do acidente, mas uma cena lhe chamou a atenção. Uma das vítimas estava bastante agitada e se debatia enquanto o paramédico tentava prestar atendimento. Não dava pra ver muito bem da sua janela no primeiro andar, mas parecia que a vítima tinha agarrado o braço do paramédico, agora também agitado e que de alguma forma, mesmo com a impressão de estar um um dos braços severamente amputado pelo acidente, a vítima tinha grudado no pescoço dele e antes que ele conseguisse se soltar, outra vítima do acidente agarrava em sua perna. O outro paramédico veio então pra ajudar e começou a chutar um dos agressores. Tamanha era a violência dos chutes, que você tremia a cada pancada, se sentindo mal demais pra continuar vendo a cena, mas ao mesmo tempo paralisado pela violência gratuita. Quando você voltou a olhar, o segundo paramédico que chutava uma das vítimas estava no chão sendo atacado por outras quatro pessoas e aí, nesse momento você se lembrou do que viu nos cinemas e o esclarecimento foi como uma tijolada arremessada da janela de um carro em movimento, bem no meio da cara da sua vida tranquila e patética.

Agora aqui está você, faminto, cansado, sujo e ainda em estado de choque. Na sua mão, a Taurus 80 que você achou ontem e que passou a noite inteira em suas mãos, indo da direita pra esquerda conforme aumentava o suor da mão e o cabo ainda um pouco sujo, ficava mais quente e pesado. E de vez em quando, ali sozinho com a arma na mão, algumas vezes a ideia de acabar com tudo de uma forma rápida passou pela sua cabeça em um flash de segundo. Tantas dúvidas e tantos temores, tristeza e solidão. Solidão e medo é como uma mistura fina de glicerina e ácido nítrico, basta um pouquinho de pressão e vai tudo pelos ares. O problema todo foi a velocidade como os principais meios de comunicação pararam. No segundo dia da confusão já não havia mais rádio, tv, etc… Sinal de celular e internet então, nem pensar. Não da pra você saber se o problema é só aqui na sua cidade ou se já se espalhou em outros lugares. E é ai que você pensa em seus familiares. Não fala com eles desde o primeiro dia lá no trabalho e a dúvida se estão bem é massacrante. Atravessar a cidade pra chegar no bairro em que você morava agora parece com tentar viajar pra outra cidade à pé. E a tristeza e a saudade, o medo mais a solidão te fazem pensar. O medo e a solidão te fazem pensar no cara lá no outro quarto que estava com a arma. Como deve ter sido pro cara tirar a própria vida? Foi rápido ou dolorido? Será mesmo verdade que a ultima coisa que você ouve é o clique do gatilho antes da explosão da espoleta? Como deve ser 10 gramas de chumbo incandecente atravessando o céu da boca e bilhões de terminações nervosas a mais de 190m/s, deixando na parede a sua ultima obra de arte. O artista plástico que usa sangue e fragmento de ossos pra desenhar a marca da covardia. Não. Você chegou até aqui e não vai acabar assim.

Então a melhor coisa a se fazer é sair e enfrentar o desafio de procurar comida e um novo abrigo e tentar chegar na sua antiga casa. É muito provável que se sua familia sobreviveu ou foi para algum lugar, alguém pode ter deixado algum bilhete ou nota para que você pudesse encontrá-los. Pode não ser uma boa ideia, mas foi a única que apareceu. Então você resolve sair da casa agora que os primeiros raios de sol já surgiram.

É engraçado como um dia tão ferrado pra você pode ser tão bonito. O tempo estava perfeito e parecia uma daquelas manhãs de domingo, sem nuvem e o sol batendo levemente nas primeiras horas do dia. Seria um daqueles dias onde você sentiria o cheiro do orvalho evaporando sobre as folhas, aquele cheiro gostoso da manhã. Mas não, o unico cheiro que você sente aqui é o cheiro de sangue seco e carne azeda. O cheiro de comida guardada em saco plástico por dias em sua geladeira desligada. O cheiro dos mortos.
E por falar nos mortos, onde estariam os “não-mortos”? Quantos deles teriam ali fora? Pela fresta da porta você mal pode ver se há algum deles na rua. Mas ao sair lentamente, você percebe que um deles está parado em pé a poucos metros da porta. É engraçado como nos filmes tudo é muito diferente. Não há aquela “gemedeira” característica dos zumbis. Não há barulhos, gemidos e muito menos palavras como “miolos” ou “brains” como no filme de comédia trash “A volta dos mortos vivos”. Pelo pouco que se sabe, os que voltaram da morte não emitem nenhum som vocal, não se comunicam entre si e não conseguem desempenhar tarefas simples como segurar qualquer coisa que seja para usar como arma. Ao que parece, a causa da infecção é por vírus, um tipo de vírus que ataca uma pequena porção do cérebro, o cerebelo, responsável pelos impulsos mais básicos do individuo, como o equilibrio e outras funções motoras. O cerebelo é considerada na evolução das espécies como a porção mais antiga, sendo herdada dos répteis e é atribuída à ela os instintos como por exemplo a fome. Aparentemente o vírus age de forma parasita, tomando e mutando essa parte do cerebro, criando uma especie de autonomia e sendo responsável por gerar a energia necessária para manter a parte infectada ativa enquanto todo o resto do corpo funciona apenas por impulsos comandados pelo novo cerebelo. Com isso, o infectado passa a não ter a necessidade de respirar ou até mesmo se alimentar, coisa que aparentemente faz apenas por instinto, ainda ativo no cerebelo.
Se apenas uma porção do cerebro está ativa, e o resto do corpo só responde a pequenos impulsos, por que o zumbi não se decompõe ou endurece e para de se movimentar por rigor mortis? O vírus só irá infectar um indivíduo que estiver vivo e poderá permanecer dormente durante dias até que o hospedeiro venha a falecer da febre causada pela infecção. Mas na realidade, as funções mais básicas não se desligam e algumas células ainda mantém energia suficiente até que passe a receber energia produzida pelo vírus. Dessa forma o infectado tecnicamente não morre por completo, não chegando a iniciar os processos de decomposição, no entanto, orgãos que param de funcionar começam a decompor como acontece em casos de gangrena, liberando gás metano e sulfeto de hidrogênio, o que causa o cheiro insuportável. Como o virus só irá infectar um hospede ainda vivo, você não verá nenhum morto saindo da cova como nos filmes clássicos de terror.
Esse tipo de “parasita” não é nenhuma ficção inventada para justificar filmes trash. Existem muitos casos parecidos na natureza em que infectados são controlados e agem como zumbis. É o caso de uma variação da toxoplasmose, uma doença comum em gatos, mas que atinge 1/4 da população que sequer sabe disso. A bacteria responsável pela doença só consegue sobreviver no intestino dos gatos e para chegar lá, ela infecta camundongos e os faz de zumbis escravos, mudando seu comportamente e fazendo com que eles corram em direção as gatos de forma suicida. Outra situação parecida é de um fungo capaz de transformar formigas em zumbis, fazendo com que elas vaguem sem sentido, procurando um local propicio para a proliferação do fungo, sem antes ter andado por toda a colonia infectando outras formigas. Quando ela chega no local propicio, prende a mandibula em uma planta e lá morre para virar comida do fungo. Outro caso parecido é de um parasita que vive no intestino de alguns pássaros e para chegar lá, ele infecta caramujos e cria mutações em suas “antenas”, fazendo com que elas fiquem com aparencia saborosa e irresistível aos pássaros, em seguida o caramujo zumbi sobe na planta mais alta e ali fica horas esperando ser devorado pelos passaros famintos e continuar o ciclo de vida do parasita. Nã demoraria muito para que alguma variação pudesse infectar o unico ser que não tem predadores naturais e é encontrado em qualquer canto do planeta. A raça humana.

Então você resolve sair de vez e enfrentar esse desafio. Do lado de fora a unica coisa que você vê é um deles, em pé e imóvel, totalmente estático e silencioso. Enquanto não estão atrás de alguém, eles ficam imóveis, quase que dormentes, talves aguardando uma vítima aparecer. Você olha em volta e não ve mais nenhum. Então começa a andar devagar, ainda sem um plano, a não ser voltar ao seu antigo bairro. Quando você pensava que iria passar despercebido pelo zumbi, o seu cheiro o denunciou e logo ele começou a andar desajeitado em sua direção. A impressão que se tem quando você vê um deles andando é de que logo irá tropeçar e cair, mas não se iluda e é assim que eles fazem suas vítimas. Então você pretende testar sua nova arma e aponta em direção da cabeça do zumbi e aperta o gatilho… (Continua no próximo capitulo)

Tief

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comentários
  1. ricardoterto disse:

    Cara, muito foda. Este texto está excelente.

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